quinta-feira, 23 de julho de 2009

O lento declinar do crescimento da população em Portugal

Hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou as estimativas para população residente em Portugal.

São estimativas, números sujeitos a revisão. Valores mais precisos só com os censos de 2011. De qualquer forma são valores tomados como bastante precisos (os maiores problemas devem vir, penso eu, da dificuldade em estimar os saldos migratórios; algo difícil de se fazer com precisão numa Europa com livre circulação de pessoas e bens).

Pois bem, e o que nos diz o INE? Confirma-nos o que intuímos saber: diminuição da taxa de crescimento da população e envelhecimento da mesma.

Desde 2004 que a taxa de crescimento efectivo da população residente tem vindo a declinar até chegar aos míseros 0,09% de 2008. É o que o gráfico deste post mostra. Mas talvez mais preocupante são os indicadores da população activa (67,1% em 2008) e os rácios de "dependência": em 2008, estima-se que para cada 100 jovens havia 115 idosos...

E o que nos trazem de positivo estas novas estimativas? Bem, a maior longevidade da população, o decréscimo da taxa de mortalidade infantil (algo que nos deveríamos orgulhar, pois estamos entre os melhores do mundo) e uma ligeira melhoria da taxa de natalidade em relação ao 2007.

São estes os números e tendência que ensombram todas e quaisquer políticas económicas de médio/longo prazo. O que fazer para contrariar esta tendência demográfica? Estimular a natalidade. Promovê-la a sério. E que mais se pode fazer? Estimular a produtividade. E que mais? Uma política inteligente de imigração.

O grande desafio é, quanto a mim, desenhar políticas que estimulem e promovam, de uma forma óptima, produtividade e natalidade. Ah, e já agora, que se combinem bem com políticas de imigração. Serão objectivos incompatíveis?

O texto completo do destaque do INE pode ser lido aqui.
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PS: um dia depois à publicação do INE, o Público faz título de primeira página a partir destas estatísticas. Mas a dar ênfase à emigração, para dizer que há mais gente a sair de Portugal... Enfim, cada um é livre de dar a ênfase que quer. Até porque devemos ter em atenção de que talvez muitos dos que saem podem ser ex-imigrantes e não apenas "portugueses" altamente qualificados, como parece que o artigo quer fazer crer. Além do mais, tal como digo no post, o cálculo do saldo migratório é a parte mais complicada nesta estatística e, como tal, deve ser lida com alguma reserva e descrição... (eu não daria ênfase de primeira página!)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Comparação entre a crise actual e a Grande Depressão de 1929

A comparação entre a actual crise económica e a Grande Depressão é um dos temas que tem suscitado algum debate nos media e na blogosfera. Neste contexto, é possível encontrar as mais diversas opiniões, gráficos e análises que apoiam as mais variadas conclusões sobre, por exemplo, a extensão e a gravidade da recessão económica que atravessamos.

Há de quase tudo para quase todos os gostos. Se não concordam, vejam os dois gráficos seguintes. O primeiro, que pode ser acedido aqui, num site de dois reputadíssimos economistas, parece apoiar a ideia de que a recessão actual é pior do que a enfrentada em 1929.

Já neste gráfico, retirado daqui, de um site menos reputado, a história é exactamente a oposta: o efeito da Grande Depressão, uma vez mais aferido através do comportamento do mercado de capitais, foi mais poderoso do que o efeito provocado pela crise económica acual.


Confusos? Não há razão para isso.

Isto porque um gráfico e a sua apresentação tem muito que se lhe diga. Assim, não nos devemos esquecer de que o que estamos a ver (e a comparar) são duas séries temporais diferentes: uma "oferece" dados mensais, a outra dados diários; uma tem como base de partida da Grande Depressão Junho de 1929, a outra Setembro de 1929; uma fala em World Stock markets a outra no índice Dow Jones, outra tem como base de partida da actual crise Abril de 2009, a outra inicia a série num período de tempo mais alargado, a partir de Outubro de 2007 (i.e., no pico do índice)... E assim por adiante.

Todas estas nuances podem ter importância no aspecto visual final dos gráficos. De qualquer forma, poder-se-á argumentar que mesmo que estas nuances alterem o aspecto numérico do gráfico, a análise qualitativa ou de tendência geral que se extraem dos mesmos é una e inalterável. Afinal de contas estamos a analisar as mesmas realidades socias! Ou não é assim?

Sim, são as mesmas realidades sociais. O problema é que os instrumentos que usamos para as definir não estão isentos de subjectividade. Um exemplo: a escolha das bases de partida das crises económicas é algo que é deixado ao critério do autor dos gráficos. É algo subjectivo, pelo que a simples mudança de base de partida pode, em séries temporais como as que são acima retratadas, originar aspectos visuais dos gráficos e conclusões completamente diferentes... Enfim, um gráfico e a sua apresentação tem muito que se lhe diga.

Para mim parece-me óbvio que se pode lucrar com a discussão sobre este tema, podendo retirar-se ensinamentos da crise de 1929. Especialmente no que se pode extrair através da comparação das diferenças entre as duas crises e no que toca à condução da política económica. Ben Bernanke, o actual presidente do FED, é tido como um especialista sobre o período da Grande Depressão, sendo esta característica por vezes apontada na comunicação social como determinante para a rapidez e a agressividade das medidas de política monetária adoptadas sob o seu mandato.

No entanto, penso que fazer-se coisas como previsões sobre a duração ou a gravidade da actual crise tendo como medida-padrão a crise de 1929, é um exercício que deve ser feito com muita cautela e – como o exemplo dos gráficos acima mostra – com a ideia sempre presente de que serão sempre subjectivas.

É que, caso não o façamos desta forma, estamos sujeitos a ouvir que, como foi referido aqui, Comparing 1929 to 2008 is a bit like comparing a Model T to a 2008 Chevy: They're both cars, but that doesn't mean they're both the same."

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Cork, Irlanda

Há umas semanas atrás, estive uns dias em Cork, a segunda maior cidade da República da Irlanda (tem cerca de 200 mil habitantes).

Apesar de não ter tido muito tempo para ver a cidade, deu para ver que esta é uma cidade onde os efeitos da recessão económica estão bem presentes: lojas a fechar, descontos por todo o lado, restaurantes de luxo com ementas a preços acessíveis, blocos de escritórios vazios.

Não é de espantar. A Irlanda, outrora apelidada de “Tigre Celta”, país apontado como o exemplo a seguir por muitos (Portugal inclusive), país que teve taxas de crescimento reais do seu produto interno bruto na ordem dos dois dígitos, encontra-se actualmente com uma taxa de desemprego na ordem dos 11%, taxas de inflação negativas, previsão de um decrescimento do PIB na ordem dos 9% e reduções salariais no funcionalismo público na ordem dos 10%.

Tal como Portugal, espera-se que a sua economia retome o caminho do crescimento de uma forma consistente apenas em 2011. Enfim, veremos como se comporta a economia mundial e como economias mais ou menos periféricas como a Irlanda e Portugal se vão sair disto tudo.

Entretanto esta “crise” pode ser vista como uma "janela de oportunidade turística” para os portugueses. Com os preços a baixar, com voos directos entre Lisboa e Cork (Air Lingus), por que não trocar (pelo menos em parte) as mais do que batidas férias de sol e praia por algo diferente e dar um pulinho à Irlanda?

Vai uma pint de Murphy?

domingo, 19 de julho de 2009

O complexo dos angolanos

Por diversas razões, poucas têm sido as vezes que segui os Jogos da Lusofonia. Vi algumas transmissões de Portugal com vários países (Brasil, Guiné, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, etc.). Hoje vi a reportagem do jogo de futebol entre Portugal e Angola. Portugal ganhou (4-1) mas o que sobrou do jogo foi, mais uma vez, o péssimo comportamento desportivo da(s) selecção(ões) angolanas de futebol. Sobretudo quando jogam com Portugal. Cálculo que seja um qualquer complexo motivado pela necessidade de se mostrarem superiores aos outros (em particular aos portugueses), mas o comportamente recorrente da sua selecção de futebol apenas demonstra superioridade na falta de desportivismo, de educação, de humildade, etc. Meus caros, para quando acabarem um jogo com 11 jogadores e sem tiques de vedetas mal formadas?
PS: só para informação, no jogo de ontem, havia 1-0 para Angola quando os seus jogadores resolveram reincidir nos comportamentos enunciados e fazerem o seu harakiri habitual.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Especialistas

Numa notícia do Diário Económico de Segunda-feira, escrita sob o auspicioso subtítulo No dia em que António Costa apresenta candidatura, quatro especialistas “resolvem” os problemas da cidade, lemos que, na opinião de um dos experts, "é necessário definir, com base em estudos prévios, que usos dar às vias de circulação".

Logo a seguir, o leitor tem o prazer de se deparar com a solução para os problemas relacionados com a falta de segurança na capital portuguesa. Desta feita ela é dada, de borla aliás, por um outro colega especialista. E qual é a solução? Não adivinham? Não?! Pois bem, a solução é, nada mais, nada menos do que um… estudo!

Sim, nas palavras do especialista, a solução é "um estudo sobre a criminalidade para se poderem reposicionarem as esquadras no mapa de Lisboa”. Quem fala assim não é gago!

O problema é que com tantos estudos, fico, definitivamente, baralhado. E digo isto com sinceridade, pois parte do que actualmente faço pode muito bem ser considerado trabalho de um... especialista. E na minha opinião, o papel principal de um especialista é o de aconselhar e o de apresentar soluções. Não o de estudar ou o de fazer estudos.

Bem sei que aconselhar necessita de muita experiência, conhecimento técnico, estudo ou a da realização de estudos. Mas tanta vontade revelada em realizá-los cheira, pelos menos a mim, a esturro.

Especialmente nesta altura em que, como o próprio sub-título acima referido nos lembra, já entrámos numa espécie de campanha pré-eleitoral para as autárquicas. Um abraço de Atenas!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

As trapalhadas de Manuela

A vida até lhe tinha vindo a correr bem desde as Europeias. Não necessitava de falar (Rangel falava por ela), não necessitava de ir para a rua (Rangel ia por ela). Mas os resultados das Europeias revelaram uma coisa que ninguém esperava (sobretudo no PSD): afnal o PSD poderia ganhar as legislativas. Ora, quando cheira a poder toca a rebate e todos congregam à volta de quem lidera. E quem lidera começa ater necessidade de falar e propor coisas. Aí está o problema. A vida corria bem a Manuela Ferreira Leite até ter de começar a falar e propor alternativas. A trapalhada com "rasga" / "não rasga" das políticas sócio-económicas do governo PS são apenas o fenómeno mais mediático. Outros virão seguramente (aposto para já nas obras públicas e na avaliação dos professores). E é pena a inaptidão de Manuela Ferreira Leite em termos comunicacionais porque a vida até lhe estava a correr bem e em termos de credibilidade e de política económica goleava Sócrates. Vamos aguardar pelos próximos capítulos

As duplas candidaturas no PS

A reboque do PSD, o “Eng.” Sócrates lá se decidiu: quem é candidato a uma Câmara não o pode ser à AR. Uma excelente decisão, não tivesse ela sido tomada apenas por motivos táctico-político e não por uma questão princípios ou de transparência. Senão vejamos (os pontos seguintes resultam das declarações de José Sócrates à comunicação social):
1) Sócrates não se lembrou dela na questão das Europeias/autárquicas: Elisa Ferreira e Ana Gomes;
2) Sócrates não tomou a decisão porque acha que, por uma questão de princípios, quem é candidato a uma autarquia não deve acumular essa candidatura com qualquer outra candidatura, simultânea no tempo (o chamado “garantir o tacho”);
3) Sócrates acha que não deve acumular apenas porque são eleições muito próximas no tempo. Logo, pressuponho que se as eleições autárquicas fossem em 2010, os deputados já se poderiam candidatar, mesmos não fazendo a menor tensão de assumir um cargo de vereador (iam lá agora perder o tacho de deputado);
4) Sócrates acha que, no caso de Ferreira e Gomes, não há um caso de dupla candidatura. Segundo o Mesmo Sócrates “(…) no limite, houve um caso de dupla candidatura (…)”, mas já não há. Suponho que porque as duas senhoras já são deputadas europeias e agora apenas são candidatas autárquicas.
Eu, como felizmente não voto nem no Porto nem em Sintra, as candidaturas das duas senhores não me afectam em termos de escolha. Agora, parece-me que ambas mereciam um belo pontapé no traseiro, dado pelos eleitores desses dois concelhos. A desfaçatez tem limites.
PS: Peço desculpa pela linguagem deste post, mas penso que deve ser influência dos factos ocorridos na semana passada masa, de facto, neste caso, Sócrates e as senhoras Elisa e Ana merecem todo o achincalhamento público que tem sido feito e que ainda venha a ser feito. Por mim, a Elisa e a Ana para Estrasburgo, JÁ! Não deixem arrefecer o tacho.

Exposição a não perder

No aeroporto de Lisboa deparei-me com um cartaz sobre a exposição Encompassing the globe: Portugal and the World in the 16th and 17th centuries que esteve no Smithsonian Institution em Washington em 2007.

Finalmente em Portugal, pode ser vista a partir do dia 16 deste mês até ao dia 11 de Outubro no museu de arte Antiga em Lisboa. Algo a não perder. Mais informação sobre a exposição podem ser obtidas aqui.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Galegos em Lisboa


Como bem sabe qualquer bom “alfacinha” (tanto seja de gema ou de adopção), a história da emigração galega em Portugal está intimamente ligada ao desenvolvimento da cidade de Lisboa.

Sobre este tema, a web galega “Vieiros” (http://www.vieiros.com/) referencia um livro do autor galego Xan Leira que apresenta a história dos últimos 500 anos de emigração galega à nossa cidade. Sem dúvida, uma leitura para as minhas férias de verão!!!

http://www.vieiros.com/nova/71497/a-memoria-da-lisboa-galega

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Chifres


Reconheço que o assunto já enjoa, mas os caros colegas do blogue devem confessar uma coisa: tem muita piada!!!

Eu, como espanhol, ainda não cheguei a perceber: é mesmo assim tão grave o gesto do “obviamente demitido” (Publico dixit) ex-ministro Pinho? Atenção, não estou a argumentar (nem a favor nem contra) com estilo mistura entre sarcasmo barato e intelectualismo de saldo (o meu “blend” mais habitual). Como estrangeiro, pergunto às V. Exas. se é assim uma ofensa tão grave fazer o gesto.

OK, a educação e boas maneiras com que se devem conduzir os representantes do Povo na Assembleia exigem total correcção. Mas realmente, deve ter sido coisa muito dura, para demitir um ministro!!! Deveriam ver vocês o que se chamam normalmente nas Cortes espanholas…

Insisto: quero uma explicação sobre o significado. Já pedi à minha mulher (portuguesa), e ela só acertou a dizer: “bom, não é coisa que se faça”. Mas eu insisti sobre o significado, e ela não conseguiu concretizar. Trago agora a pergunta junto deste distinto foro. E para ajudar na resposta, trago também uma série de resposta possíveis: qual dos significados seguintes acham vocês que é o mais certo?

MAIS SIMPÁTICOS:
1) A V. Exa. tem o cabelo um pouco desarrumado, saem assim uns cornichos de lado veja lá se lhe passa um peite;
2) Meu caro amigo, quer vir comigo a Barrancos? Também há coisas boas na programação do Campo Pequeno…
3) Olha, queres ir almoçar? Vou à tasca do Zé comer rabo de boi estufado. Até vais lamber o prato!!!
4) Ontem bati com o carro oficial numa vaca na A2, caminho de Aljustrel, tinha uns chifres deste tamanho!!! Partiu-me o frontal todo!!!

MENOS SIMPÁTICOS:
1) Todos os comunas têm chifres e cauda, seu bolchevique da treta!!!
2) Até os caracóis pensam mais rápido do que tu, pá!!!
3) Não percebes nada, és um ganda boi, meu!!!
4) És burro, BURRO!!! Como é que vais perceber isto se nem percebes que a tua mulher anda a…

Ficam desafiados. Caso se lembrem de algum outro significado, agradeço sugestões.

P.S: Agradeço também que deixem ficar de fora das vossas ilustres respostas leitura políticas inteligentes (ou também das outras). É 2ª feira, pelo amor de Deus!!!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Roaming mais barato a partir de hoje

Uma boa notícia para todos aqueles que têm a necessidade de utilizar comunicações móveis por esta Europa fora. A partir de hoje, os preços das chamadas telefónicas, SMS e utilização da Internet móvel baixam na União Europeia.

Ora aqui está um exemplo da actuação da União Europeia com efeitos visíveis na vida dos cidadãos. Uma medida aplicada com o intuito de proteger o consumidor e de evitar o aparecimento de contas "exorbitantes de telemóvel". Fica a dúvida. Será que foi este tipo de contas, que também deveriam fazer das suas e aparecer nas caixas de correio de funcionários públicos europeus, que fez com que se tenha "despertado" para o assunto?

Não sei. Só sei que hoje mesmo vou beneficiar desta medida. Obrigado União Europeia! Eu cá não sou ingrato nem mal-agradecido...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Algumas leituras interessantes

Estou quase a acabar O Cisne Negro de Nassim Nicholas Taleb. É um livro muito interessante e bastante polémico porque faz uma crítica (por vezes cruel) dos instrumentos e da forma de pensar de muitos economistas e estatísticos.

A mensagem de Taleb é clara: o mundo não é descrito por uma normal. Num ambiente cada vez mais globalizado e integrado, são os fenómenos extremos, na maior parte das vezes completamente imprevisíveis, aqueles que interessam e aqueles que marcam a vida de todos nós. Neste contexto, todos as políticas e análises feitas com base no conceito da normalidade são irrelevantes. É fácil ver por que razão muitos economistas e estatísticos devem achar o livro de Taleb polémico e irritante.

Polémicas à parte (para ter uma ideia delas basta ir à wikipédia e ver o que é dito sobre o autor), acho que o livro, tal como o trabalho de investigadoras como Deirdre McCloskey - aliás já referida neste blogue - deveriam ser referências obrigatórias em qualquer curso de economia. Ou não é a partir da confrontação de ideias que o conhecimento se desenvolve?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Rescaldo (tardio) das eleições europeias - parte II (Europa)

Portugal faz parte do grupo de países em que os governos foram fortemente penalizados. Referenciando apenas os principais Estados, é curioso o facto de três dos governos mais penalizadas serem de esquerda (Brown em Inglaterra, Zapatero em Espanha e Sócrates em Portugal). Ao invés, governos de direita foram poupados e alguns reforçaram posições (Merkel na Alemanha, Sarkozy na França e o inenarrável Berlusconi em Itália). Dada crise económica e a constante atribuições de responsabilidades, pela esquerda europeia, ao sistema capitalista, seria de prever que os povos se sentissem tentados a punir as políticas mais ligadas ao mercado, privilegiando aqueles que advogam o Estado e cada vez mais Estado. Tal não sucedeu. Os europeus pareceram querer dizer que, se nem tudo corre bem a nível económico, não é o Estado e a sua crescente acção que irão resolver esses problemas. Ou seja, uma coisa são os “sound-bites” da maioria dos analistas (esmagadoramente de esquerda) outra é a percepção dos indivíduos sobre quem pode e como se pode ultrapassar a crise económica. Afinal ainda há esperança. Afinal ainda há uma imensa maioria que acredita no mercado e que diz não a conceitos estatizantes para a economia.

Rescaldo (tardio) das eleições europeias - parte I (nacional)

E a surpresa aconteceu mesmo. A última vez que escrevi sobre o assunto, no início da pré-campanha aquando de um debate a cinco no programa “Prós e Contras”, lembro-me que destaquei aquilo que me parecia ter sido uma péssima opção de José Sócrates pelo candidato Vital. Vital revelou-se um verdadeiro desastre. A todos os níveis. Aliás nesse debate, Miguel Portas tinha deixado isso bem claro. Assim, quando ainda há apenas dois meses atrás se falava se o PS iria ou não ter nova maioria absoluta, hoje especula-se sobre quem ganhará as próximas legislativas. O resultado das Europeias pode criar um certo elán nas hostes do PSD e o toca a reunir é sempre muito forte quando se começa a sentir o cheiro do poder. O PS, ao invés, pode cair numa onda de descrença que pode desmotivar os seus apoiantes. Para já, penso que o PS ainda está bem à frente do PSD mas que as coisas podem inverter-se. Paulo Rangel, quem diria, revelou-se uma excelente aposta de Manuela Ferreira Leite. Esta agora terá de começar a apresentar as propostas políticas, económicas e sociais para o caso de ter de vir a formar governo. O CDS sobreviveu mais uma vez às péssimas sondagens que davam como perdendo a sua representação no Parlamento Europeu. Resistiram e mantiveram os seus dois deputados. Aliás, apesar do exagerado pedido de audição ao presidente da República a este propósito, Paulo Portas tem alguma razão na eventual desmobilização e quase apelo ao voto útil que este tipo sistemático de sondagens tem sobre o seu partido. O PCP perdeu para o BE. Com isto vê o BE eleger um 3º deputado e mantém os seus dois. O BE, apesar do 3º deputado in-extremis, ficou longe dos 15, 16 e 17% que algumas sondagens indicavam. Apesar de tudo continua a subir. Vá-se lá saber como e porquê, digo eu. Agora preparemo-nos para as legislativas. O que parecia um passeio do ainda arrogante José Sócrates, pode ter-se transformado numa renhida luta pela vitória.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Notas dispersas sobre Bucareste

Encontrei um restaurante Gambrinus em Bucareste. Não é assim tão extraordinário quanto isso. Parece que Gambrinus é o nome do santo padroeiro da cerveja. Mas ao contrário do restaurante de luxo Lisboeta, o de Bucareste já não funciona...

Encontrei Bucareste assim, com muitas portas fechadas e edifícios por restaurar.

É extraordinária a forma como os cabos de electricidade (ou de telefone?) são tratados nesta cidade. No entanto, milagre dos milagres, parece que tudo funciona. Não encontrei "puxadas". Estes postes, com carradas de fios, encontram-se por toda a cidade. Tirei a fotografia que acima podem ver perto de uma das avenidas principais de Bucareste.

O palácio que alberga o Parlamento. Mandada construir pelo ditador Nicolae Ceauşescu, muita gente em Bucareste não gosta dele. É, muito provavelmente, o edifício mais conhecido da cidade.

" A vida inspira-me", slogan do Millennium, desta feita em romeno. Também encontrei sinal do capitalismo português em Atenas.

Que mais há a dizer? Parques amplos. Famílias a passear nos parques. Mesmo de noite. Segurança. Ciclovias em praticamente toda a cidade e, por estranho que pareça, bicicletas na estrada. Trânsito infernal. Carros estacionados por toda a parte (mesmo em cima das ciclovias; eis a resposta para as bicicletas na estrada?). Preço de uma refeição por metade do que se consegue em Lisboa...

Tiananmen


Caros. Parece que com as (más) notícias campanha eleitoral e as (piores) notícias económicas passou por nós sem ser lembrado o aniversário dos protestos da praça de Tianamen. Não há muito a dizer, só lembrar aqueles que acreditaram que a sua atitude podia tornar o seu país um lugar melhor. Junto um link para umas imagens contemporâneas.
http://www.youtube.com/watch?v=XJBnHMpHGRY

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Previsões e notícias do Banco Central Europeu

Hoje a principal notícia vinda do Banco Central Europeu (BCE) não foi tanto a manutenção da taxa de juro de referência nos 1% (acção que era esperada pela grande maioria dos analistas), mas a divulgação das Eurosystem staff macroeconomic projections para a economia da zona Euro.

Estas projecções têm algumas particularidades técnicas engraçadas. Uma delas é que são apresentadas sob a forma de intervalos de confiança. Uma raridade, se tivermos em conta o que é feito por outras instituições internacionais (FMI, Comissão Europeia, et cetera). Esta é, na minha modesta opinião, uma forma mais transparente de apresentar este tipo de informação ao público.

Também é verdade que exige mais algum poder de interpretação de quem lê. Por isso o título da notícia on-line do jornal Público de hoje sobe esta matéria não seja, provavelmente, a que melhor se adapta à informação fornecida pelo BCE. (ver título aqui)

Mas voltemos às previsões. Para 2009 estimam que o PIB da zona Euro irá variar entre -5,1% e -4,1%. Para 2010 entre -1,0% e uns míseros 0,4%.

Mas talvez mais importante do que os números em si mesmo é a informação de índole qualitativa que se consegue extrair deste tipo de informação. Ou, o que é o mesmo, tentar reduzir toda a informação num único sinal. Para mim ele é o de que, de acordo com a informação disponível até agora, os técnicos do sistema de bancos centrais europeus acham que a recuperação económica nem em 2010 se vai ver. Na melhor das hipóteses apenas veremos um moderado crescimento com taxas de crescimento positivas nos últimos trimestres desse ano.

O texto com as projecções dos especialistas do sistema Europeu de Bancos Centrais pode ser encontrado aqui.

A campanha torpe do camarada Vital

Tenho dado a atenção mínima ao que já vai da campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. E confesso que a impressão não é boa. Isto para ser simpático. Da esquerda à direita. No entanto há uma campanha particularmente má. Não má no sentido da comunicação ou dos outdoors. Péssima pelo serviço que está a prestar a uma campanha que, não esquecendo os temas nacionais, teria que ser mais elevada. Até porque o seu cabeça de lista apresentou-se como querendo falar apenas de temas europeus. No entanto, e sabemos como é difícil renegar os ensinamentos e a velha escola onda se faz a aprendizagem para a vida, o Camarada Vital simplesmente deixou de debater e resume as suas intervenções a insinuações suja, baixas, torpes e os demais adjectivos qualificativos para as suas intervenções. São intervenções ao velho estilo estalinista de, se queres destruir alguém arrasa a sua reputação, lançando boatos e calúnias que haverão de fazer o seu caminho. O que o camarada Vital está a fazer com o caso BPN é vergonhoso. Talvez porque já não possa falar de mais nenhum assunto, tantas são as suas incongruências com o partido que agora integra. Se o camarada Vital tem provas do envolvimento do PSD e dos seus actuais dirigentes que as apresente. Se sabe de algo que os demais não sabem, que o divulgue. Agora repetir insinuações, dias seguidos, sobre o envolvimento de um partido (todo o partido) num caso do foro dos negócios é baixo, é vil, é uma atitude canalha que mostra bem que jamais saberá viver com as regras da democracia e jamais esquecerá os esquemas praticados nas piores ditaduras de que temos memória. No jogo democrático não pode valer tudo. No fundo, Vital é uma saudosista. Mas isto é um sinal do país que temos, especialmente de há 10 anos para cá. Jornais, televisões e rádios, políticos, magistrados e bastonários, entre outros, com bases em fontes que preferem manter o anonimato, lançam suspeições sobre tudo e sobre todos, muitas vezes sem razão mas que afectam o bom nome dos visados e podem hipotecar as suas legítimas aspirações. Portugal hoje assemelha-se pouco a uma democracia. Tornou-se um país de delatores, de denunciadores, de caluniadores. Tendo isto como pano de fundo, em quem poderemos acreditar? É todo um país que perde a sua credibilidade. Mais, nunca se sabe quando aparece uma denúncia anónima que, por um acaso, é comunicado como um facto consumado.

domingo, 31 de maio de 2009

BPN e BPP: A crise contada pelo El País

Apesar de o nome do nosso blog, hoje gostava de fazer uma pequena mudança de perspectiva, e apresentar a visão de um problema nacional desde lá fora. Trata-se dos escândalos do BPN e BPP vistos e contados pelo El País, na edição de hoje. Penso que se trata de um artigo bem escrito, objectivo, sintético e que consegue apresentar os factos mais importantes do assunto ao público (espanhol) sem cair na subjectividade quase desrespeitosa que algumas publicações internacionais anglo-saxónicas evidenciam quando falam das “economias do sul” (quem não se lembra dos “PIGS flying”?). Julguem vocês próprios:
http://www.elpais.com/articulo/empresas/Banca/deriva/Portugal/elpepueconeg/20090531elpnegemp_4/Tes

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Esquadras de Turismo

Tenho uma conhecida que, na sua primeira visita a Lisboa, teve a desagradável experiência de ver a sua carteira passar para as mãos de um daqueles amigos do alheio que, como bem sabemos, adoram os estrangeiros que nos visitam. Aconteceu na estação de metro da Alameda, no passado mês de Março.

Após o sucedido, a pessoa em causa foi informada para ir a uma “esquadra de turismo”, da PSP, reportar o infesto acontecimento.

Primeira surpresa. Confesso que não sabia que existiam “esquadras de turismo”. Aquela que foi usada localiza-se na Praça dos Restauradores. Suponho que a sua existência se deva ao facto dos turistas necessitarem, ao contrário da fauna autóctone, de competências especiais dos polícias (maior celeridade dos processos, conhecimento de línguas, etc). Não sei, mas até pode ter alguma razão de ser.

Depois de prestar todas as informações à PSP, sucede que a minha conhecida teve de voltar para o seu país de origem. Fim da história? Não. Passado cerca de um mês, a polícia portuguesa envia-lhe uma carta para a sua caixa de correio.

Surpreendidos com a eficiência do Ministério da Administração Interna? Sim? Pois então o que dizer do facto de a mensagem ter sido escrita em português quando a pessoa que a recebeu não percebe uma palavra deste idioma? Esta é, a bem dizer, a minha segunda surpresa, até porque a queixosa falou sempre com as autoridades em inglês… Será que a vontade de espalhar o idioma Luso pelo mundo faz parte do "pacote" de competências especiais associados às “esquadras de turismo”? Não sei, fica a pergunta no ar.

Já agora, se por acaso encontrarem uma carteira em pele, de cor preta, com presilha de cor castanha, com um zipper à sua volta, que contenha três fotografias, números de telefone, um cartão de descontos em loja e cartões de visita digam alguma coisa. Dá-se de barato o dinheiro perdido.