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sábado, 23 de maio de 2009

Jornal, jornais "i"

Para quem ainda tinha algumas dúvidas sobre a orientação política e ideológica do novíssimo jornal i, nada melhor do que ler o editorial de hoje intitulado A política social não serve para nada de Martim Avillez Figueiredo.

Este texto cita, entre outros ilustres, James Watson que, para além de ser conhecido pelo seu trabalho pioneiro na descodificação do ADN, foi o autor de afirmações polémicas sobre África e as políticas ocidentais para o desenvolvimento deste continente. Segundo este cientista, estas estariam erradas pois assentam num pressuposto falso, a de que os negros são igualmente inteligentes aos brancos. (Ver mais sobre este assunto aqui; o editorial do i pode ser lido aqui.)

É claro que o que se escreve num jornal não flui apenas em função do que pensa o seu editor principal. Em todo o caso, o editor escolhido e, claro está, o que é revelado através da sua coluna de opinião, explicam, de certa maneira, por que razão determinadas pessoas e opiniões (e não outras) aparecem no resto do jornal.

O que mais me "chateia" nisto tudo é o não haver, logo à partida, uma identificação clara das posições ideológicas dos jornais. Pelo menos aquela que nortea a escolha dos seus colunistas e, claro está, a do seu editor principal.

Lembram-se da primeira edição o i? Falava em devolver aos leitores o gosto de ler um jornal e coisas do género. Prometia colunistas como João Carlos Espada, Ricardo Reis e, talvez para baralhar, Paul Krugman. Mas nada se disse sobre a orientação ideológica do jornal. Acho que, por uma questão de honestidade para com o leitor, ela deveria ser desde logo assumida. Mas compreendo que, num mercado pequeno como o nosso em que para sobreviver é necessário vender para todos, seja melhor fazer com que os leitores gradualmente se apercebam (ou nunca se apercebam) deste tipo de posições.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Errarum Humanum Est

Na passada quinta-feira o jornal “Público” celebrou o seu décimo nono aniversário. Para além de oferecer aos seus leitores uma reflexão interessante sobre o futuro dos jornais em papel (isto é, do seu próprio futuro), o jornal publicou um texto com uma deliciosa resenha de algumas das gralhas e disparates que foram publicadas ao longo dos anos de vida deste jornal.

Já tive a oportunidade de assinalar neste blogue, aqui e ali, algumas gralhas deste jornal. Gralhas e erros, especialmente num jornal que se assume com sendo “de referência”, são situações que me irritam um bocado. Veja-se, por exemplo, a mesmíssima edição de quinta-feira, aquela que ostenta na primeira página o título “Ups! Fizemos asneira”. Nessa mesma página, há uma referência a uma entrevista ao futebolista Messi. Acontece que o jornal direcciona o leitor para as páginas 26/7 quando, na verdade, a entrevista aparece nas páginas 24/5....

Tudo bem, são gralhas e todos nós podemos errar. Tanto mais que reconheço que o custo de ter um jornal interessante, actual e quase à prova de erro são muito grandes quando sabemos que as notícias viajam a uma velocidade vertiginosa e caem em catadupa nas redacções dos jornais.

E já agora, verdade seja dita, pior do que fazer erros, é não os assumir. E o “Público” foi, de certa maneira, pioneiro nesta questão ao colocar no seu jornal uma secção “O Público errou”. Faz muito bem. Afinal de contas quem nunca errou? O erro faz parte da natureza humana.

Acredito que é atitude perante o erro que nos diferencia perante os demais. Reconhecer o erro, aprender com ele, não ter uma atitude negligente e desejar fazer sempre melhor são alguns dos meus princípios. Talvez por isso goste do jornal apesar das suas inúmeras gralhas e (por vezes) deliciosas trapalhadas. É que, afinal de contas, o diário parece seguir aquela frase de Bento de Jesus Caraça, que se encontra gravada numa parede do Instituto Superior de Economia e Gestão, que diz “Se não temo o erro, é porque estou sempre disposto a corrigi-lo”. Nem mais.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Um final digno

Quem se desloca todos os dias a Lisboa para trabalhar já reparou com certeza no quase desaparecimento dos jornais gratuitos das ruas da capital portuguesa.

Antes do fim do verão estes jornais vinham parar às nossas mãos quase sem darmos por isso. Agora é preciso procurá-los. No actual contexto económico, terão sido duramente atingidos pela diminuição das receitas provenientes da publicidade.

Com esta situação cai também uma fonte de receita alternativa para todos aqueles que distribuíam este tipo de imprensa. Já estava quase habituado a vê-los todas as manhãs, dois, três ou mais destes distribuidores dedicados a entregar, numa azáfama competitiva impressionante, pilhas de jornais à porta das principais estações do metro e do comboio.

Estudantes, cidadãos com sotaque brasileiro ou do leste europeu, de tudo existia um pouco entre aqueles que complementavam os seus rendimentos com a distribuição de jornais gratuitos. Terão sido estes os que mais terão sentido directamente os efeitos do rápido encolhimento do mercado da imprensa gratuita e aqueles que, como habitualmente, de quem menos se fala.

No meio disto tudo registo um facto positivo. A diminuição das tiragens e o desaparecimento de alguns títulos tornaram a capital mais limpa. É que quando as tiragens destes periódicos eram grandes e existiam muitos títulos no mercado, não era infrequente vermos caixotes do lixo a abarrotar de gratuitidade e as ruas de Lisboa cheias de folhas compradas a custo zero.

Ora aqui está uma situação em que a recessão económica se encarregou, por si só, de resolver um problema resultante da infeliz combinação entre a gratuitidade e a falta de civismo.

Espero sinceramente que este mercado volte a florescer. Até porque seria, muito provavelmente, um sintoma da retoma económica. Mas espero igualmente que, caso voltemos às grandes tiragens de antigamente, que pelo menos os jornais coloquem uma frase na primeira página a dizer qualquer coisa do género: “Leia, consuma mas não polua: dê ao seu jornal um fim digno”.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Despejar números

Dois exemplos da ligeireza e do cuidado com que, todos os dias, nos despejam números sobre os fenómenos que se passam à nossa volta.

No Prós e Contras da semana passada, Fátima Campos Ferreira, apresentadora de serviço, não se cansou de referir que o “Plano Obama” era de 800 milhões de dólares. Milhões? Quando muito serão mil milhões.

Ontem, na edição impressa do jornal Público, numa pequena notícia sobre o plano francês de relançamento económico, é referido um pacote de construção de infra-estruturas relacionadas com o sector dos transportes no valor de 870 000 milhões de euros. Mil milhões? Não serão milhões? Parece-me extremamente implausível que só o plano para as infra-estruturas francês seja superior à globalidade do plano americano para a presente crise económica...

Enfim, exemplos destes há-os aos pontapés. Talvez o essencial não seja informar bem e, já agora, com um mínimo de rigor. Talvez o essencial seja mesmo o despejar números em cima do cidadão desprevenido... O que acham? Estarei enganado?