A avaliar pelo post anterior, a TSF está em grande neste blogue. Mas ao contrário do meu colega de página virtual, não vou falar do assunto "poeta Manuel Alegre". Não. Quero antes falar sobre a notícia da eventual descida do rating da dívida soberana portuguesa.
Desta feita é a Moddys que diz que o rating pode descer daqui a três meses. As justificações? Bem, segundo a notícia da TSF, que pode ser lida aqui, é devido à "recente deterioração das finanças públicas portuguesas" e, last but not the least, por causa "do desafio a longo prazo que a economia nacional enfrenta".
Nada mais óbvio e objectivo, diria eu!
Sim, porque como todos nós sabemos, ontem as finanças públicas estavam assim-assim e agora, vá-se lá saber porquê, estão mais deterioradas! E também como todos os mortais sabem, o desafio a longo prazo de Portugal, que a Moddy sabe muito bem qual é (mas eu não, infelizmente), foi descoberto mesmo agora.
Estas justificações são um verdadeiro espectáculo. E já agora, por que não usar o rating do futebol português nestas apreciações? É um critério tão válido como o desafio a longo prazo que a economia portuguesa enfrenta. Ou não?
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quarta-feira, 5 de maio de 2010
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
O ranting dos outros
O episódio do corte no rating atribuído a Portugal pela Standard & Poor’s lembra-me o que Carlo M. Cipolla, um historiador italiano, escreveu sobre a apreciação que dois colegas anglo-saxónicos fizeram ao comportamento dos mercadores venezianos na época das cruzadas.Segundo estes historiadores, os colonos cristãos instalados nas terras conquistadas aos infiéis eram terrivelmente explorados pelos mercadores venezianos.
Comentando esta veredicto, Cipolla escreve no (hilariante) livro Allegro ma non tropo, que se holandeses, alemães ou ingleses tivessem feito o mesmo, seriam “apontados nos manuais de história como exemplos admiráveis de ética protestante e estimáveis campeões de protocapitalismo”.
E remata, dizendo, que “tratando-se simplesmente de italianos, foram definidos como exemplos deploráveis de avidez e falta de escrúpulos comerciais”.
Há muita gente que argumenta que a História é escrita por pessoas que têm a tendência a favorecer o lado que é mais forte e que esta é, não bastas vezes, influenciada por estereótipos culturais modernos.
Só não suspeitava era que os tais ratings, que avaliam o risco de uma nação não cumprir com os seus compromissos futuros, feitos por pessoas totalmente insuspeitas e altamente qualificadas para tal (historiadores anglo-saxónicos?), pudessem sequer transpirar a suspeição do mesmo enviezamento cultural.
Sinceramente não sei o que dizer. É que após me informar que Portugal, a Espanha a Grécia e a Irlanda terem visto o seu rating descer, fiquei a saber, via Público, que “Alguns dos países que mais estão a sofrer com a crise financeira internacional, como os EUA e o Reino Unido, mantêm o valor máximo inalterado”. Mas afinal de contas para que serve o rating?
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Agências de rating
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Rate me, darling!
Durante os últimos dias tem-se falado muito sobre as ameaças que a Standard & Poor’s, campeão das sociedades de rating, fez a vários países no sentido de rebaixar a sua qualificação, entre eles Espanha e Portugal.
Como todo economista cabal e minimamente competente sabe, os ratings são elementos capitais na formação da dívida dos Estados e das empresas, dado que proporcionam a potenciais investidores e devedores uma imagem da fiabilidade da entidade. Quanto melhor é o rating, menores são a indefinição e o risco associados às operações financeiras desse agente económico e menores as cargas financeiras que o agente deve suportar a câmbio do dinheiro dos investidores.
So far, so good. Até podemos concordar todos que é uma boa ideia que entidades independentes como a Standard & Poor’s assumam esse papel de “salvaguarda sistémica” contra operações e produtos financeiros de alto risco e dúbia qualidade.
O problema é que as ditas agências não são independentes a séria. O seu protagonismo nesta crise mundial que estamos a viver é central, dado que os produtos financeiros que contaminaram os mercados nem teriam chegado a ser negociados se a avaliação de risco dos mesmos tivesse sido feita de maneira responsável e independente. Não podemos esquecer que as agências de rating são contratadas pelos bancos para avaliar os seus produtos. E sendo o negócio das agências receber dinheiro pelas ditas avaliações, pareceria estúpido a qualquer responsável pelos negócios de qualquer uma destas agências “incomodar” aos seus clientes fornecendo avaliações pouco simpáticas do risco associado a certos produtos. Desde a perspectiva dos bancos, obviamente que nenhuma agência que “subavaliasse” os seus produtos uma vez, voltaria a ser contratada!
O resultado é evidente: quanto melhores são as avaliações, maior o volume de negócio das agências avaliadoras e das próprias entidade emitentes, pois os produtos aparecem no mercado com um carimbo de confiança. E na situação inversa, a da crise, a da contracção dos mercados? Pois, voltando ao início do meu comentário, estamos a viver isso agora: todos os agentes são pouco prestáveis, os seus produtos manhosos, as perspectivas gerais são más, a desconfiança é o clima dominante e as agências avaliadoras não podem confiar em ninguém, porque o seu prestígio (???) poderia ficar em perigo. E então é que aumentam as cargas financeiras, a dívida, o défice...
Resultado evidente: o comportamento pro-cíclico das agências de rating, que tem efeitos muito negativos tanto no auge como na crise.
E afinal isto é um problema de independência, não de competência, pois não me parece que os profissionais das agências de rating sejam incompetentes. Parece-me sim que os objectivos corporativos não são compatíveis com o seu papel teórico: avaliar o verdadeiro risco dos produtos e agentes financeiros independentemente da sua procedência e estado de ânimo dos mercados. Em definitiva, um papel nivelador e até certo ponto contra-cíclico.
Corolário: vou arriscar a ser chamado de “commie”, mas não será necessário (re)pensar o papel deste tipo de agente económico? Não será aqui também necessário um “novo paradigma”? Será que o assunto se encontra nas agendas destas conferências internacionais (G20 e afins) sobre economia global? Se calhar até era boa ideia…
Como todo economista cabal e minimamente competente sabe, os ratings são elementos capitais na formação da dívida dos Estados e das empresas, dado que proporcionam a potenciais investidores e devedores uma imagem da fiabilidade da entidade. Quanto melhor é o rating, menores são a indefinição e o risco associados às operações financeiras desse agente económico e menores as cargas financeiras que o agente deve suportar a câmbio do dinheiro dos investidores.
So far, so good. Até podemos concordar todos que é uma boa ideia que entidades independentes como a Standard & Poor’s assumam esse papel de “salvaguarda sistémica” contra operações e produtos financeiros de alto risco e dúbia qualidade.
O problema é que as ditas agências não são independentes a séria. O seu protagonismo nesta crise mundial que estamos a viver é central, dado que os produtos financeiros que contaminaram os mercados nem teriam chegado a ser negociados se a avaliação de risco dos mesmos tivesse sido feita de maneira responsável e independente. Não podemos esquecer que as agências de rating são contratadas pelos bancos para avaliar os seus produtos. E sendo o negócio das agências receber dinheiro pelas ditas avaliações, pareceria estúpido a qualquer responsável pelos negócios de qualquer uma destas agências “incomodar” aos seus clientes fornecendo avaliações pouco simpáticas do risco associado a certos produtos. Desde a perspectiva dos bancos, obviamente que nenhuma agência que “subavaliasse” os seus produtos uma vez, voltaria a ser contratada!
O resultado é evidente: quanto melhores são as avaliações, maior o volume de negócio das agências avaliadoras e das próprias entidade emitentes, pois os produtos aparecem no mercado com um carimbo de confiança. E na situação inversa, a da crise, a da contracção dos mercados? Pois, voltando ao início do meu comentário, estamos a viver isso agora: todos os agentes são pouco prestáveis, os seus produtos manhosos, as perspectivas gerais são más, a desconfiança é o clima dominante e as agências avaliadoras não podem confiar em ninguém, porque o seu prestígio (???) poderia ficar em perigo. E então é que aumentam as cargas financeiras, a dívida, o défice...
Resultado evidente: o comportamento pro-cíclico das agências de rating, que tem efeitos muito negativos tanto no auge como na crise.
E afinal isto é um problema de independência, não de competência, pois não me parece que os profissionais das agências de rating sejam incompetentes. Parece-me sim que os objectivos corporativos não são compatíveis com o seu papel teórico: avaliar o verdadeiro risco dos produtos e agentes financeiros independentemente da sua procedência e estado de ânimo dos mercados. Em definitiva, um papel nivelador e até certo ponto contra-cíclico.
Corolário: vou arriscar a ser chamado de “commie”, mas não será necessário (re)pensar o papel deste tipo de agente económico? Não será aqui também necessário um “novo paradigma”? Será que o assunto se encontra nas agendas destas conferências internacionais (G20 e afins) sobre economia global? Se calhar até era boa ideia…
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